O surfista Ricardo dos Santos recebeu a equipe da revista JUICE na varanda da casa de seus avós maternos. Com vista privilegiada para a paradisíaca Guarda do Embaú, o que era para ser mais uma entrevista, revelou a personalidade forte de um menino que desde cedo precisou encarar a vida como gente grande. Aos 18 anos e com o passaporte carimbado ao redor do planeta, ele chegou aonde muitos apenas sonharam. Confira a seguir nas palavras do tube rider catarinense o que ele pensa sobre carreira, viagens e competições.
Como você começou no surf?
Quando eu tinha 6 anos de idade meu primo me levou para surfar na Guarda do Embaú. Nesse mesmo ano eu levei uma vaca sinistra que me fez abandonar a idéia. Era só meio metro, mas eu era muito pequeno. Um ano e meio depois desse episódio, voltei a surfar com mais frequência.
Quando começou a competir?
Aos 10 anos comecei a competir no Catarinense Amador e meu primeiro ano foi terrível, não passei nenhuma bateria. Foram vários anos de batalha no Catarinense competindo contra bons surfistas – hoje conhecidos da nova geração – e precisei evoluir rápido para disputar no mesmo nível.
Algum evento marcante nessa época do Catarinense Amador?
Foram dois momentos. Um especial e o outro triste. Durante um campeonato na praia Mole, em 2003, o mar estava grande e eu costumo me destacar nessas condições. Fiz baterias muito boas e na final não consegui mostrar o que eu sabia. Depois desse dia comecei a repensar minhas atitudes erradas. No ano seguinte, na Praia Brava, fiz duas notas altas na final em ondas de meio metro com séries maiores e levei o caneco. Foi alucinante.
Como você lida com os altos e baixos na carreira de surfista?
Eu sou uma pessoa muito orgulhosa e não admito erros. Procuro não fraquejar nas derrotas ou em momentos difíceis, como agora que estou machucado. Prefiro pensar que vou voltar muito mais forte, mais explosivo. A vida está sempre me testando para ver se sigo em frente ou se desisto.

Quais picos internacionais você já viajou para aperfeiçoar o surf?
Tahiti, Hawaii, Indonésia, Peru, Chile, Ilhas Canárias, Austrália, África… Mas cada lugar tem sua beleza e característica marcante. No Tahiti, por exemplo, pude surfar altos tubos e no fim da onda ainda dar de frente com as montanhas e o clássico arco-íris. É sem dúvida o lugar mais bonito que já fui. Já no Hawaii você sente aquela vibe de estar em uma arena, no centro do surf mundial. Você tem que se destacar entre trilhões de pessoas para conseguir descer uma onda, e isso me atrai bastante. A Indonésia é aquele sonho que todo mundo tem, que você vê nos quadros, nas revistas, nos filmes.
Entre todas, qual a trip mais marcante?
Com certeza, Jeffery’s Bay é a melhor onda que já surfei. Ninguém imagina essa resposta, mas me senti muito bem surfando lá. Uma onda longa, manobrável, diferente do que estou acostumado. Por eu ser melhor em tubos, é uma onda desafiadora para mim. Quero voltar lá milhões de vezes.
Como era a sua carreira antes do patrocínio da Billabong?
No começo eu contava com a ajuda de um amigo aqui da Guarda, o Juninho Maciel, que pagava as minhas inscrições. Às vezes a gente brigava, coisa de muleque. Eu era um cara difícil de lidar, o mundo tinha que ser do jeito que eu queria e isso fechou algumas portas. Eu não conheci meu pai e isso fez com que eu amadurecesse mais rápido. Sempre fui muito solto, minha mãe me largava nos campeonatos com 10, 11 anos e eu ia sozinho, pegava carona na volta. Aos13 anos fui apresentado para o Tino da Stanley. Ele era colega da minha tia e fechamos um apoio, se é que posso chamar assim: R$ 150 por mês e cinco peças de roupa. Aquilo para mim foi alucinante. Eu corria os campeonatos, até que consegui me classificar pela equipe catarinense para disputar o Brasileiro Amador. Ao mesmo tempo, perdi a ajuda da Stanley. Foi um choque, voltei para a mesma situação de alguns anos atrás. Então decidi morar em Florianópolis e passei a frequentar o centro de treinamento no Aragua. Oito meses depois, fui contratado como atleta da Mormaii. Evolui muito nos dois anos que fui patrocinado por eles. Todos os meus amigos da mesma idade já estavam engatando patrocínio com marcas gringas e era a hora de dar o melhor de mim. No final de dez meses sozinho na Ilha, voltei para a Guarda para colocar minha cabeça no lugar e direcionar meu foco nas competições. Foi quando ganhei três campeonatos seguidos e fui para o Hawaii pela primeira vez, com 15 anos. Posso dizer que com a Mormaii tive a primeira oportunidade de sair da Guarda para o mundo. Alguns meses depois, já com 16 anos, fiz minha primeira viagem para a Indonésia. De volta ao Brasil, encerrei o contrato com a Mormaii. Foi então que a Billabong entrou na minha vida e fechamos um patrocínio, onde estou até hoje.
Como foi a negociação com a Billabong?
Tentei não pensar muito antes de realmente acontecer. Nervosismo a parte, o contrato era muito melhor que tudo que aconteceu comigo até então. A Billabong foi como um degrau a mais que eu alcancei. Estou falando da empresa, da estrutura que eles oferecem para o atleta. Fui pela segunda vez para o Hawaii, fiquei três meses lá e foi alucinante. Fiz capa da revista HardCore, página dupla na Fluir, altas imagens em Pipe e isso me deu um levante. O resto do ano eu estava garantido e as pessoas apostavam em mim. Na metade do ano fui pela primeira vez para o Tahiti.
Fale sobre a trip para o Tahiti.
Sem palavras, altas ondas. Competi o trial do WCT, mas dei muito azar de cair na bateria com dois havaianos. Como a onda quebra em um pico só, eles ficaram me marcando. Pegavam uma onda e davam a volta. Eu tinha que contar com uma série de três ondas e ainda torcer para estar posicionado na terceira onda. Eu era moleque, não tinha malícia de lidar com esse tipo de situação e fiquei um pouco intimidado com alguns xingamentos. Mesmo assim, foi quando tudo aconteceu. Várias fotos minhas publicadas, a revista HardCore fez uma matéria da galera no Tahiti e fiz participações em filmes do Paulo Tracco, Gustavo Camarão e Surf Adventures.

Como é o trabalho que você desenvolve com o Marcelo Barreira?
Um amigo que morava nas Ilhas Canárias nos apresentou e a gente se deu bem logo de cara. Ele é um cara super humilde e ao ver minha situação topou me ajudar na hora, em troca de fidelidade. Antes de qualquer contrato, o que vale é a minha palavra, então fechamos um apoio de pranchas. Na minha opinião, ele é o melhor shaper que já conheci. Ele é um shaper que entrega a prancha exatamente conforme a encomenda. Não vai rolar aquela marra de interferir no pedido do surfista. Até hoje quando ele tem alguma idéia diferente do meu pedido eu sou consultado. Ano passado fizemos mais de 40 pranchas e devo muito do meu surf a ele.
Qual é a prancha dos teus sonhos?
A que eu uso todos os dias. É uma 6′0, 18 de meio, 2 1/4.
Comente um pouco sobre o teu desempenho em campeonatos.
Competição é uma parada difícil para mim, sinto que ainda preciso evoluir muito. Quem vê de fora e fala que sou freesurfer é porque não me conhece. O Marco Giorgi, Jerönimo Vargas, Pedro Manga, Felipe Cesariano, Alejo Muniz, Wigolly Dantas, entre outros, são meus grandes incentivadores. Eu sou um cara muito competitivo, assim como todos esses que citei, mesmo que ninguém admita. Eu não fico tranquilo enquanto não pegar uma onda melhor ou fazer um tubo mais profundo, não gosto de ficar para trás. Agora estou em uma nova fase da minha vida e vou usar essa competitividade a meu favor.
Quem é seu técnico no momento?
O Renan Rocha. Ele tem casa aqui na Guarda e estamos tendo uma relação mais próxima. Antes disso, o meu grande mestre - que até hoje considero como um pai - foi o Otoney Xavier. Trabalhamos juntos por quatro anos. Ele foi o cara que me deu bronca na hora que precisava e incentivo nos momentos difíceis. Ele acreditou no meu potencial. Hoje em dia o Otoney é um cara muito solicitado e todo mundo descobriu o dom que ele tem. Acabamos nos afastando e o Renan Rocha assumiu essa função. O Renan representa o surf brasileiro há mais de 10 anos e para isso tem que ser muito inteligente e saber qual passo dar. Acho que no momento é o que eu mais preciso: estratégias para competir e evoluir.
Como você avalia o ano que passou?
2008 foi um ano de muitas lesões e isso me afastou um pouco do surf. Dia 24 de janeiro do ano passado voltei do Hawaii com o joelho lesionado e fiquei até o dia 5 de fevereiro sem surfar. Cheguei em Noronha para o WQS já recuperado pela fisioterapia, mas sem treinar. Durante o freesurf fazendo fotos para uma revista explodi meu ombro em uma bancada. No dia seguinte, mesmo com dores, resolvi competir por questão de honra. Entrei remando com um braço e fiquei só observando a disputa. De repente vem um triângulo na minha direção. Levantei meio desengonçado na prancha, tirei um tubo, fiz uma nota 8 e passei para primeiro. Peguei uma outra ondinha, fiz um 3 e passei a bateria em segundo. Foi incrível. No dia seguinte, ainda com o ombro machucado, peguei um tubo na primeira onda e fiz um 7. Na segunda onda fiz um 8 e disparei na liderança. Não cheguei até a final do campeonato, mas faturei dois mil dólares com um braço a menos. Voltei para Florianópolis, fiquei duas semanas sem surfar por causa do ombro e embarquei para o Chile. Fui avançando as baterias do Billabong Pro Junio e nas quartas de final contra um chileno eu fiz um 9.75 e um 10. Eu ainda tinha uma pressão extra por ser atleta da Billabong, estar fora de casa e a esquerda de Pichilemu ser bem parecida com a da Guarda. A semifinal foi bem difícil, a onda veio perfeita nos últimos minutos, eu quase caí na primeira manobra, depois consegui dominar, dei um rasgadão animal e mais duas batidas. Fiz 5 e pouco e consegui virar. Depois disso era muito difícil alguém conseguir tirar aquele título de mim. O mar estava grande, fiz duas notas boas logo de cara e nem esperei o resultado da última onda do meu adversário, já saí da água comemorando.
Qual foi o melhor momento do início da sua carreira até hoje?
Com certeza o Chile foi momento mais marcante em competições. Quando saí da água estavam todos os meus amigos, o Zé Paulo - chefe de equipe da Billabong - que sempre me ajuda bastante, vários jornalistas, autógrafos, foi muito emocionante.
E o pior?
A minha maior frustração foi agora no mundial Pro Junior, que aconteceu no início de janeiro na Austrália. Machuquei minhas costas na Indonésia, voltei para o Brasil e me recuperei para a última etapa sul-americana do Pro Junior na praia do Santinho, em Florianópolis. Fiz o resultado que precisava para me classificar para o mundial e embarquei para o Hawaii. A dor voltou e quase não surfei. Cheguei na Austrália mais uma vez sem treinar antes do campeonato e surfei só nas baterias. Meu desempenho foi melhor do que eu esperava, mas não o suficiente para ir mais longe. Eu estava surfando apenas 30% do que eu sei e 30% é pouco. É a primeira vez que falo isso na mídia, ninguém sabia que eu estava machucado. Foi muito frustrante, porque realizei o sonho de me classificar e na hora não consegui surfar. O mundial Pro Junior é uma competição que exige 100% do atleta. O Pablo Paulino ganhou duas vezes porque teve muita raça, o Mineirinho também. Ninguém ganha aquele campeonato se não estiver bem preparado e com muita vontade de ganhar. É um ano inteiro de triagens pelo mundo e todos os atletas pensando no mesmo campeonato.
Todo mundo tem sonhos. Você já realizou alguns e, com isso, surgem outros. Qual o teu sonho como surfista?
Eu quero entrar na elite mundial e ser um cara diferente. Não quero me acomodar por estar entre os 45 melhores, eu quero ser o melhor. Se não for para mostrar o meu surf prefiro sair. Faço parte da nova geração e sei que podemos trazer bons resultados para o Brasil. Sem tirar o mérito de grandes nomes como Peterson Rosa, Renan Rocha, Vitor Ribas, Raoni Monteiro, Danilo Costa, Léo Neves e toda essa galera que abriu as portas do surf brasileiro pelo mundo.
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